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Sete Lágrimas

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Cristina Fernandes (Público, Ípsilon, 20.06.2008)
# artigo páginas 20 e 21

"Fazer voar a música

O que têm em comum um compositor luterano do barroco alemão e um ortodoxo grego do século XXI? No seu segundo CD o grupo Sete Lágrimas quis mostrar como as músicas de Schutz e de Ivan Moody se iluminam mutuamente.

Desde que começaram a cantar juntos, há dez anos, a música de Henrich Schtz (1585-1672) tornou-se companhia para Filipe Faria e Sérgio Peixoto. Estes dois tenores do Coro Gulbenkian tinham como ambição fazer um projecto livre de algumas convenções decorrentes da formação musical clássica do conservatório. Queriam abordar a música antiga, a contemporânea e repertórios de fronteira (entre o erudito e o popular) e emancipar-se da página escrita, pois a partitura é apenas o suporte. Criaram em 2000 o grupo L'Antica Música, que tomou o nome de Sete Lágrimas em homenagem ao ciclo de sete danças Lachrimae (Lágrimas) de Jonh Dowland (c.1563-1626) e ao espírito que percorre a sua música.

No início, o percurso parecia semelhante ao de outros grupos de música antiga. "Havia receio de arriscar num meio fechado como o português", confessam ao Ipsilon Filipe Faria e Sérgi Peixoto. "Tinhamos ideias, mas quando chegava a altura de as mostrar acabávamos a fazer a oratória de Carissimi ou outro repertório instituído".

Foi há três anos que as coisas começaram a mudar. Em Março de 2007 lançaram o primeiro CD ("Lachrimae #1), na etiqueta Murecords criada pela Arte das Musas (empresa com actividade nas áreas da Cultura, Arte e Comunicação dirigida por Filipe Faria), e há semanas colocaram no mercado o seu último trabalho ("Kleine Musik"), onde prestam homenagem a Schutz através do olhar contemporâneo de Ivan Moody (n.1964), compositor britânico residente em Portugal, que convidaram a compor sobre os mesmos textos usados pelo grande compositor alemão.

"Schutz era o compositor que melhor se adaptava à nossa maneira de cantar e de ver a música", conta Sérgio Peixoto. "Estudámos os "Pequenos Concertos Espirituais" e descobrimos sempre coisas maravilhosas, não só a nível musical mas também interpretativo. A ilustração musical do texto não é tão imediata como em Monteverdi ou nos italianos da mesma época, mas depois de a trabalharmos em profundidade está lá tudo, é impressionante", explica Filipe Faria. "Dizemos muitas vezes: Schutz nunca nos enganou".

O italiano extrovertido e o intimismo alemão

Os dois tenores já tinham cantado várias obras de Ivan Moody e a ideia de o convidar a participar foi consensual. O projecto começou a ser delineado há dois anos e foi posto em prática com o apoio do Ministério da Cultura, que elogiou a sua originalidade conceptual.

Também a visão de Schutz de Ivan Moody se encontra próxima da dos directores musicais do Sete Lágrimas. "A música de Schutz é uma belíssima mistura do italiano extrovertido com o intimismo alemão, que tem a ver com a escala mais reduzida dos meios que ele tinha à disposição depois da guerra dos 30 anos", diz o compositor. "Trata o texto com uma abordagem muito pessoal. Há uma profundidade teológica no pensamento de Schutz que concilia ao mesmo tempo a seriedade e o fascínio perante a criação e a alegria, coisa que só se percebe depois de entrar a fundo na sua música. Isto diz-me muto porque são coisas que também sinto – uma alegria teológica. "Ivam Moody é membro da igreja ortodoxa grega e identifica essa atitude com a sua fé.

Além dos textos, a proposta tinha outras condicionantes como o uso de instrumentação semelhante à escolhida para as obras de Shutz, que se destinam a vozes e baixo contínuo. " Tal como Stravinsky, acredito que as limitações podem fazer uma peça florir, se alguém nos dá o dinheiro e uma folha de papel em branco, sem nada de onde partir, caímos no vazio", diz Moody. "Olhei para as partituras de Schutz para absorver o ambiente e depois usei a minha linguagem." A natureza dos meios também não foi um problema pois Moody está habituado a escrever para grupos que se dedicam à música antiga e contemporânea, como o Hilliard Ensemble ou o Taverner Consort, e também tem usado instrumentos antigos. "Já fiz peças para "consort" de violas da gamb, mas nunca tinha escrito para tiorba ou oboé barroco. O som destes instrumentos é fantástico. A maneira como a tiorba pode preencher o espaço harmónico como faz na música barroca foi para mim uma coisa delirante."

Abordagem contemporânea

O projecto teve ainda outra convidada: a soprano Ana Quintans. "Estávamos a actuar com o Coro Gulbenkian e de repenta entra uma jovem soprano portuguesa para cantar a Missa em Dó menor de Mozart", conta Filipe Faria. "Fizemos-lhe o convite para colaborar com o Sete Lágrimas logo nessa noite e foi aceite. Ana Quintans já não está só limitada às nossas fronteiras, é um assombro de musicalidade e de seriedade. Nunca tinha abordado este repertório, mas deixou-nos sem palavras durante a gravação."

Do ponto de vista interpretativo Filipe e Sérgio tiveram com a música de Schutz e de Ivan Moody uma atitude semelhante: uma aproximação à partitura que parte da recriação. Por exemplo: duas das peças do compositor britânico são interpretadas no cravo embora tenham sido escritas para vozes adoptando um processo similar ao que se fazia com a música do século XVII. "A formação musical clássica incita-nos a ter respeito pela partitura mas fomos aprendendo a libertar-nos. A partitura é apenas um suporte, serve para tentar perceber o que o compositor diz mas também para descobrir o que queremos fazer com a música", refere Sérgio Peixoto. O Sete Lágrimas pretende uma abordagem contemporânea e uma ligação à identidade sonora do grupo. "Uma dúvida essencial desde o princípio era: será que isto passa como som do grupo? Mas a verdade é que isso tem vindo a ser reconhecido."

A criatividade para além da partitura e a combinação de repertórios de fronteira fervilhava há muito nas mentes dos dois cantores, mas só há poucos anos começaram a arriscar. Agrupamentos que admiram, como L'Arpeggiata de Christina Pluhar, Accordone de Marco Beasley e Guido Morini ou Les Fin'Amoureuses, serviram de incentivo. "Não é uma questão de os imitar, mas sentimos uma atitude semelhante perante a música", explica Filipe Faria. "Convidámos, por exemplo, para o Festival Terras sem Sombra (que a Arte das Musas organiza) um coro para interpretar música sacra de carácter popular do eixo latino-mediterrânico e em Novembro vamos lançar um novo CD, "Diáspora. PT". Aí a loucura será total".

Novos projectos

Sérgio e Filipe gostavam que esse novo projecto"viesse mudar a mentalidade fechada que existe em Portugal". "Temos intérpretes muito bons que fazem música antiga de acordo com as práticas de execução históricas e gostamos muito de ouvir, mas não é essa a nossa intenção", diz Filipe. Em "Daspora .PT" evocam-se repertórios influenciados pela música portuguesa no mundo. "Começamos em Portugal com Vilancicos de Negro (género coral que utiliza várias línguas e dialectos de influência mestiça), passamos por Cabo Verde com a morna, por Goa, Macau, Timor, o México e o Brasil. A ideia da diáspora tem ramificações: o português que saiu para a América do Sul no século XVI e que compôs baseado nas tradições orais que recolheu, mas também os músicos que em Portugal se inspiraram em fórmulas novas que ouviam interpretar aos escravos africanos", explica Sérgio. "Teremos também músicos convidados, como o fadista António Zambujo." Filipe acrescenta que "não é um projecto musicológico, mas totalmente estético e conceptual" que implicou meses de trabalho sobre as partituras: Recriámos do primeiro ao último compasso todas as peças."

O objectivo foi criar uma abordagem pessoal do Sete Lágrimas e não uma aproximação idiomática a cada um dos géneros. "Não queríamos imitar, mas recriar. Nos ensaios usámos adjectivos e metáforas para transmitir as nossas ideias aos músicos. Lembro-me sempre do maestro Frans Bruggen que nos dirigiu tantas vezes no Coro Gulbenkian. Ele faz poucos gestos quando dirige, mas quando ensaia usa adjectivos que fazem voar a música de Bach, nós tentámos fazer voar estas músicas", diz Filipe Faria.

À "Diáspora.PT" vai seguir-se outro CD em 2009, "Silêncio". São três olhares de compositores sobre a Bíblia: o de Ivan Moody que é ortodoxo grego, o de Eurico Carrapatoso que é católico e o de Christopher Bochmann que é anglicano protestante. Cada compositor fará música sobre a herança erudita e popular da sua própria linguagem e experiência", conta Filipe Faria. "Será mais uma aventura que promete quebrar fronteiras".

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“ipisilon” supplement, Público, 20th June 2008

"Making music fly

What do a Lutheran composer of the German baroque and a Greek Orthodox of the 21st century have in common? On its second CD, the group Sete Lágrimas shows how the music of Schütz and Ivan Moody mutually illuminate each other.

Cristina Fernandes

Since they began singing together, ten years ago, the music of Heinrich Schütz (1585-1672) has been with tenors Filipe Faria and Sérgio Peixoto. These two tenors from the Gulbenkian Choir had the ambition of setting up a project free from some of the conventions of classical music training. They wanted to perform early and contemporary music and repertoires that crossed boundaries (between art and folk music) and free themselves from the written page, in that the page is merely a guide. In 2000 they founded the group L’Antica Musica, which was later renamed Sete Lágrimas (Seven Tears) in homage to the set of seven Lachrimae by John Dowland (c.1563-1626) and to the spirit that runs through his music.

Initially, their trajectory seemed similar to that of other early music groups. “There was some fear of risk in such a closed atmosphere as that of Portugal”, Filipe Faria and Sérgio Peixoto confessed to Ípsilon. “We had ideas, but when the time came to show them, we ended up doing a Carissimi oratorio or some other established repertoire!”

It was three years ago that things began to change. In March 2007 they launched their first CD (“Lachrimae # 1”) on the Murecords label, developed by Arte das Musas (a company active in the areas of culture, art and communication, run by Filipe Faria), and a few weeks ago launched their latest project (“Kleine Musik”), in which they pay homage to Schütz through the contemporary vision of Ivan Moody (b. 1964), a British composer resident in Portugal, whom they invited to compose music for the same texts used by the great German composer.

“Schütz was the composer who had most to do with our way of singing and looking at music”, says Sérgio Peixoto. “We worked on the “Kleine Geistliche Konzerte” and were constantly discovering wonderful things, not just musically but in terms of performance. The musical illustration of the text is not as immediate as it is in Monteverdi or the Italians of the period, but once you work on it in depth, everything is there, it’s amazing”, explains Filipe Faria. “We often say: Schütz has never deceived us!”

The extrovert Italian and German intimacy

The two tenors had already sung a number of works by Ivan Moody, and the idea of inviting him to participate was a joint decision. The project began to be worked out two years ago and was put in motion with the support of the Ministry of Culture, which praised the originality of its conception.

Ivan Moody’s view of Schütz is also close to that of the two musical directors of Sete Lágrimas. “Schütz’s music is a wonderful mixture of the extrovert Italian and German intimacy, which has to do with the reduced scale of the resources he had at his disposal after the Thirty Years’ War”, says the composer. “His approach to the text is a very personal one. There’s a theological depth in Schütz’s thought that brings together seriousness and fascination with creation, and joy, something one only grasps after entering deeply into his music. This means a lot to me because they are things I also feel – a theological joy”. Ivan Moody is a member of the Orthodox Church and identifies this attitude with his faith.

In addition to the texts, the proposal included other elements such as the use of instrumentation similar to that chosen for Schütz’s works, which were written for voices and basso continuo. “Like Stravinsky, I believe that limitations can make a piece flower; if you’re given the money and a blank sheet of paper, with no starting point, you’re left stranded”, says Moody. “I looked at Schütz’s scores in order to absorb their atmosphere and then used my own language.” The scoring was also no problem since Moody is used to writing for groups who work with both early and contemporary music, such as the Hilliard Ensemble or the Taverner Consort, and has also used early instruments. “I’ve written works for consorts of viols, but I hadn’t written for theorbo or baroque oboe. The sound of these instruments is fantastic. The way in which the theorbo can fill in the harmonic space, as it does in baroque music, I found absolutely stunning.”

Contemporary approach

The recording also involved another guest: the soprano Ana Quintans. “We were singing in the Gulbenkian Choir and suddenly this young Portuguese soprano came in to perform the Mozart Mass in C minor”, recalls Filipe Faria. “We invited her to collaborate with Sete Lágrimas on that same night, and she accepted. Ana Quintans is no longer confined to the borders of Portugal; she’s a marvel of seriousness and musicality. She had never worked on this repertoire, but she left us speechless during the recording.”

In terms of performance, Filipe and Sérgio took a similar approach to the music of both Schütz and Ivan Moody: an approach to the score based on re-creation. For example, two of the British composer’s pieces are performed on harpsichord, though they were written for voices, adopting a process similar to that used in the music of the 17th century. “Classical music training teaches us to respect the score, but we learned to free ourselves from this. The score is only a guide, which serves to understand what the composer is saying but also to discover what we want to do with the music”, says Sérgio Peixoto. Sete Lágrimas aims at a contemporary approach and a connection with the sonic identity of the group. “A basic doubt from the beginning was: will this be recognized as the group’s sound? But the fact is that it has been recognized.”

Creativity beyond the score and the combining of border-crossing repertoires has been in the two singers’ minds for a long time, but only a few years ago did they began to take the risk. Ensembles they admire, such as Christina Pluhar’s L’Arpeggiata, Marco Beasley and Guido Morini’s Accordone or Les Fin’Amoureuses, provided the incentive. “It’s not a question of imitating them, but we share their attitude towards music”, explains Filipe Faria. “We invited, for example, for the Terras sem Sombra Festival [organized by Arte das Musas], a choir in order to perform sacred music of Latin/Mediterranean folk inspiration and in November we will launch a new CD, “Diaspora. PT”. It’s going to be completely mad!”

New projects

Sérgio and Filipe would like this new project” to change the closed mentality that exists in Portugal”. “We have very good musicians who perform early music in accordance with historical performance practice, and whom we very much enjoy listening to, but that’s not our intention”, says Filipe. In “Diaspora. PT” there are introduced repertoires influenced by Portuguese music throughout the world. “We begin in Portugal with vilancicos negros [a choral genre employing various languages and dialects of mixed racial origins], go to Cabo Verde, for the morna, Goa, Macau, Timor, Mexico and Brazil. The idea of the Diaspora has ramifications: the Portuguese who left for South America in the 16th century and composed based on the oral traditions he collected, but also musicians who in Portugal were inspired by new formulas that they heard from the African slaves”, explains Sérgio. “we will also have guest musicians, such as the Fado singer António Zambujo.” Filipe adds that it is “not a musicological project, but completely aesthetic and conceptual” which requires months of work on the scores: “We re-created every piece from the first to the last bar.”

The objective was to create a personal approach for Sete Lágrimas, and not an idiomatic approach to each genre. “We didn’t want to imitate, but to re-create. In the rehearsals we uses adjectives and metaphors to transmit our ideas to the performers. I always remember the conductor Frans Brüggen, who conducted us so many times in the Gulbenkian Choir. He uses very few gestures when he conducts, but when he rehearses he uses adjectives that make Bach’s music fly; and we tried to make this music fly!” says Filipe Faria.

After “Diaspora .PT”, another CD will follow in 2009, “Silêncio”. “this will be three views of the Bible by three composers: Ivan Moody, who is Greek Orthodox, Eurico Carrapatoso, who is Catholic, and Christopher Bochmann, who is Anglican. Each composer wrill write music on the art and popular heritage of his own language and experience”, notes Filipe Faria. “It will be one more adventure that promises to break down barriers.”




 
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