Diaspora PT (apresentação do CD Diaspora, MU0103 2008)

Filipe Faria
Sérgio Peixoto
Direcção Musical
Voz
Voz
Flautas de Bisel
Flautas de Bisel e Oboé Barroco
Viola da Gamba
Violone
Tiorba
Tiorba e Guitarra Barroca
Opção 2 *
Voz
Voz
Viola da Gamba
Violone
Tiorba
Tiorba e Guitarra Barroca
* esta opção implica a adaptação do programa
Nota: programa concebido ao abrigo do projecto de edição discográfica com o apoio do Ministério da Cultura, Direcção Geral das Artes.
Notas ao Programa
A partir do séc XV, com a expansão portuguesa, inicia-se um periodo de aculturação e miscigenação que influenciou as práticas musicais dos países dos Descobrimentos e de Portugal. No decorrer de 500 anos de contactos, a influência cultural e musical é evidente e encontramos hoje elementos que se misturam e se relacionam para formarem estruturas musicais fixas que identificam um povo, uma comunidade ou um país. O presente projecto DIASPORA PT, por Sete Lágrimas, apresenta/representa a interacção musical das diferentes culturas que, relacionadas com Portugal, têm em comum aspectos da tradição social, linguística e musical. Abrange géneros e formas musicais dos cinco continentes que vão desde o Vilancico português do séc XV/XVI, até ao Chorinho Brasileiro, passando pelos Vilancicos Negros, Mornas e Coladeiras de África e pelas canções tradicionais de Timor, Macau e Índia (Goa e Damão). Apresenta através de instrumentos antigos e/ou tradicionais e de períodos que vão desde o Renascimento aos dias de hoje essa dinâmica de interacção musical entre Portugal e o mundo.
Este novo projecto da Arte das Musas resulta do 3.º CD, da sua etiqueta MU, com Sete Lágrimas, e pretende promover a divulgação e a pedagogia das diferentes músicas produzidas no mundo português. Com base na utilização de diferentes estéticas e linguagens musicais propomo-nos transmitir esta aculturação musical, de vários séculos de contactos, tendo como ponto de partida a língua portuguesa e os géneros musicais desenvolvidos desde o período da expansão colonial até ao início do séc. XX pelos países que têm como lingua oficial o Português, ou que na sua língua materna, mantêm vocabulário e/ou estruturas gramaticais com origem na língua portuguesa.
Para além de dar a conhecer esta tradição musical escrita e oral, pretende-se demonstrar que o universo estilístico musical deste projecto, não é um conceito fechado mas que possibilita um intercâmbio e uma utilização de recursos, estilos musicais e instrumentação de tal forma diferentes que se transformam hoje em produto cultural global e que simultaneamente não perdem a identificação cultural da própria origem.
TEMAS
Vilancicos
Vilancicos negros de Santa Cruz de Coimbra
Um dos maiores centros musicais em Portugal nos séculos XVI e XVII foi sem dúvida o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, principal casa dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Aqui, os monges eram ensinados a cantar, tocar e mesmo compôr especialmente para os serviços litúrgicos. Julga-se no entanto, que em alturas festivas do calendário religioso, eram representados pequenos autos que incluíam para além da representação propriamente dita, encenação, dança e música com estrutura formal próxima do vilancico com textos de carácter religioso. A temática é geralmente natalícia e os textos são uma mistura de várias línguas predominando o Português e o criolo, no entanto, podem encontrar-se outras como o Castelhano ou o Italiano. A sua forma musical é apresentada em várias partes entre solos e tuttis que dialogam em dimensões e estruturas bastante elaboradas. São expoente máximo da troca de culturas ligadas á descoberta e expansão portuguesa, especialmente em África, por tal, são conhecidos como vilancicos negros.
Choro
O Choro, vulgarmente chamado de chorinho, é um género musical popular brasileiro com quase duzentos anos de existência. Caracteriza-se por ser um género musical muito ritmado e alegre, no qual os músicos, de uma forma virtuosística, improvisam livremente em torno de uma melodia. A história do Choro tem o seu início provavelmente em 1808, ano em que D. João VI e a Família Real portuguesa chegam ao Brasil fugindo das invasões francesas. Com a capital do Reino estabelecida no Rio de Janeiro, promove-se uma reforma de fundo nas estruturas sociais e culturais brasileiras especialmente na capital. Com a corte portuguesa vieram instrumentos de origem europeia como o piano, a flauta, o clarinete e o violão, e géneros musicais como a valsa, polca minuete, entre outros. Tudo isto, aliado á abolição do tráfico de escravos em meados do século, faz emergir uma nova classe social, uma classe média composta por funcionários públicos, instrumentistas de bandas e pequenos comerciantes, geralmente de origem negra, que se instalam nos subúrbios de Rio de Janeiro. Desta nova classe surgem músicos com alguma formação, que começam a improvisar sobre estes géneros musicais, adicionando os ritmos africanos tão enraizados na cultura brasileira ( como o batuque e o lundum). Quanto à origem do termo choro, há ainda alguma polémica. No entanto, poderá estar ligado á maneira ýchorosaý de tocar os géneros musicais trazidos pela corte portuguesa, ou derivar do termo ýxoloý, um género de musica que também era dançada pelos escravos das fazendas. Os conjuntos ou agrupamentos que tocam este género musical são chamados de regionais e os instrumentistas ou compositores de chorões. Os instrumentos utilizados são vários sendo os mais usuais a flauta, o clarinete, o bandolim que executam a melodia, os violões o acompanhamento e o pandeiro para o rítmo. No final do século XIX, este género estava já bem enraizado nas cultura musical brasileira e desenvolve-se até meados do séc. XX onde conhece o declínio com o surgir de um novo género: A Bossa Nova.
Patuá Macaense
O Patuá Macaense ou Crioulo Macaense ou ainda Papia Cristam di Macau, é uma lingua crioula com base na língua portuguesa que se desenvolveu como falar predominante do território desde o séc XVI até ao início do séc XX. Este dialecto colonial, enraizou-se e foi sendo transmitido de pais para filhos como linguagem familiar, mesmo nas casas mais distintas. Usado também pelos chineses na comunicação diária com os macaenses, e ainda pelos escravos africanos e asiáticos de várias procedências, trazidos pelos pioneiros portugueses. Ao longo de quatro séculos de história, o patuá macaense sofre influências das línguas Inglesas, chinesas, malaias e cingalesas e são evidentes as transformações na fonética, vocabulário e gramática, de forma a responder às constantes mutações culturais do território. Contudo, nos finais do séc. XIX com a implementação de reformas educativas por parte do Governo de Lisboa, no sentido de implementar o português de Portugal em todas as colónias, o numero de falantes de Patuá começa a decair rapidamente, de tal forma que este falar perde importância como língua de comunicação entre os portugueses, macaenses e chineses. O Patuá apesar de ainda hoje ser falado por um pequeno numero de habitantes, na sua maioria idosos, está hoje em vias de extinção, sendo aos poucos substituído pelo inglês e o cantonês. A música tradicional, cantada neste dialecto traduz de uma forma quase naïf a saudade, o amor e acima de tudo o orgulho de ser macaense.
Goa- Concani
Durante quatro séculos, para o luso-indiano católico, a língua oficial foi o português, em particular para os goeses cristãos. Contudo, e devido a factores socio-políticos, cedeu lugar ao inglês, que funciona hoje como língua veicular na India. A língua portugesa, como língua oficial em Goa até 1961 ano em que integra a União Indiana e que identificou durante séculos a herança cultural no território, foi entrando em decadência, porque para a maioria das comunidades, o português passa a ser a segunda língua, sendo a língua materna o concani. O Concani, que começa por ser um vernáculo do sânscrito, conseguiu estar fora da influência de outras línguas que proliferaram no território indiano, exceptuando o português. Falado em toda a região do Concão onde se situa Goa, esta língua foi-se espalhando pelos habitantes fugidos da Inquisição durante a administração portuguesa. A escrita caracteriza-se por possuir características do Devanagári e do alfabeto romano e cada região tem um dialéctico único bem como um estilo próprio de pronúncia. A actividade cultural esteve sempre dependente das elites católicas goesas, patrocinando um envolvimento cultural entre a tradição europeia e asiática. A música não terá sido excepção e no início do séc. XIX surge o mandó, que exemplifica e integra de uma forma bem concreta as tradições culturais/musicais portuguesas com o folclore goês e as tradições concani. A estrutura, linguagem e estética musical poderá ser muito próxima da tradição europeia, no entanto, o mandó tem formas e ritmos que dependem da poesia da língua concani, geralmente de três versos cada e que descrevem acontecimentos ou estados de espírito.
Timor Leste
O tétum é a língua nacional e co-oficial de Timor Leste. É uma língua austronésia, como a maioria das línguas da região. O tétum mais antigo existia antes da chegada dos portugueses. No entanto, com a posterior ocupação, o tétum apodera-se de vocábulos portugueses e malaios e integra-os no seu léxico, tornando-se uma língua crioula e simplificada. Se bem que o português fosse a língua oficial do então Timor Português, o tétum serviu como língua franca, ou seja, como forma de comunicação entre os habitantes da ilha. Quando em 1975 a Indonésia invade o território, o uso do português foi proibido. Contudo, a implementação do bahasa (língua indonésia) não foi de todo bem sucedida em parte graças á actuação da Igreja Católica que adoptou o tétum como lingua litúrgica, tornando-o num pilar da identidade cultural e nacional. O tétum absorveu inúmeros vocábulos portugueses e esta tendência poderá acentuar-se com a construção do mais novo país e o 8º de língua portuguesa. A música de Timor Leste reflecte de certa forma o contexto geográfico, cultural e social local, onde é possivel estabelecer ligações autóctones com outras culturas musicais como a ocidental, fruto da colonização portuguesa. Os elementos fundamentais da expressão cultural do povo timorense, estão bem vincados nos diferentes géneros musicais tradicionais que se baseiam na tradição oral e foram passando de geração em geração. Géneros como o tebe, tebedai ou o cansaum, são hoje ainda interpretados no território e exprimem sobretudo actividades do quotidiano, como por exemplo, a debulha do arroz ou a apanha do camarão ou ainda, como forma de dar as boas-vindas aos homens regressados da guerra. Os instrumentos musicais tradicionais desempenham um papel relevante na performance musical, como é o caso do babadok ( pequeno tambor de corpo cónico de madeira) ou do dadir (círculo de metal com cerca de 15cm de diâmetro de altura indefinida , percutido por uma baqueta de madeira). Surgem por fim, e como consequência da colonização, as violas de seis cordas e as flautas soprano de bisel.
BIBLIOGRAFIA
ALVES DAS NEVES, João, Os crioulos de língua portuguesa no mundo, O Estado de São Paulo, 2001.
ESPERANÇA, João Paulo T., Tetum Prasa ka tetum terik considerações sobre a língua franca de Timor Leste e o seu futuro, Linda-a-Velha, 1995.
HALL,Geoffrey, Tetum Language for East Timor (1999).
JACKSON, Kenneth David, A presença oculta, Macau, 1995
JACKSON, Kenneth David, Cantha sem vargonya, Macau, 1996
VÁRIOS, Os Portugueses de Malaca, revista Macau, 2001.
RAULINO, Jailson. Choro: Uma expressão musical genuinamente brasileira.
VASCONCELOS, Ary. ýChoroý. Panorama da Música Popular Brasileira na ýBelle Époqueý. Brasil. 1977.
MATTA, Jorge, Vilancicos de Santa Cruz de Coimbra, Ibermúsica (ibermusica.net).
Programa
Soledad Tengo de Ti
Anónimo (c.1526) Portugal
Na fonte está Lianor
Anónimo (Séc. XVI) Portugal
En tus brazos una noche
Manuel Machado (1585-1646) Portugal
Antonya Flaciquia Gasipá
Fr. Filipe Madre Deus (1630-1687) Guatemala
Xicochi Conentzitle
Gaspar Fernandes (?1565-1629) México
Flor Amorosa
Joaquim António da Silva Calado (1848-1880) Chorinho, Brasil
Lundun Menina voçê que tem
Anónimo, Brasil/Portugal
Modinha Ah! Nerina eu não posso
Anónimo, Brasil/Portugal
Bastiana
Tradicional, Macau
Farar Far
Tradicional, Goa
Barra di Damão
Tradicional, Damão
Mai Fali É
Tradicional, Timor
Morna
Tradicional, Cabo Verde
En un Portal Derribado
Ma. 50 Santa Cruz Coimbra, África
Ola zente que aqui samo
Ma. 50 Santa Cruz Coimbra, África
Sete Lágrimas, Portugal (2007)
Sobre a Recercada Segunda de Diego Ortiz
D. João IV (1603-1656) [atribuído], Portugal
Crux fidelis
Tradicional, Espanha (Catalunha)
El noi de la mare
Juan de Anchieta (1462-1523), Espanha
Con amores la mi madre
Tradicional, Itália (Lombardia)
San Giuseppe e la Madonna
Vilancico Anónimo (Século. XVI), Portugal
Senhora del mundo
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