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Programa Lachrimae ou as Vozes e as Lágrimas Humanas (apresentação do CD Lachrimae #1, MU0101 2007)
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Filipe Faria
Sérgio Peixoto

Direcção Musical

Tenor
Tenor
Flautas de Bisel
Flautas de Bisel e Oboé Barroco
Viola da Gamba
Tiorba

Opção 2 *
Tenor
Tenor
Viola da Gamba
Tiorba

* esta opção implica a adaptação do programa

 


Notas ao Programa

O programa do concerto do Sete Lágrimas Consort percorre um período temporal que se estende dos finais do século XVI ao século XVIII onde se cruzam várias tradições e estilos musicais (francês, italiano, germânico) e a expressão ritual de vários credos religiosos (catolicismo, protestantismo) unidos por fios condutores evidentes ou subtis. O tema das lágrimas como expressão da dor, do sofrimento íntimo ou colectivo, da melancolia, da fé ou da intolerância religiosa estão implícitos em quase todas as épocas no contexto de criação de várias peças musicais ou no seu próprio conteúdo, atingindo uma expressão particularmente rica e tocante no período barroco. Por outro lado, a voz que canta (mas também chora) é um elemento primordial intrínseco à própria natureza da música, que é aqui entendida de forma abrangente estendendo-se à aspiração que conduziu compositores e intérpretes da época barroca a tentar igualar a eloquência da voz humana na música instrumental.
Um dos instrumentos cujas qualidades foram mais frequentemente comparadas às da voz humana foi a viola da gamba. Considerada pelos franceses como um instrumento nobre de expressividade infinita, deu origem a uma escola de pujante vitalidade da qual Marin Marais (1656-1728) e Antoine Forqueray (1672-1745) — “L’Ange e Le Diable”, como lhes chamou Hubert le Blanc — foram os mais brilhantes representantes. “Se os instrumentos são valorizados na medida em que imitam melhor a voz e se de todos os artifícios se aprecia mais aquele que representa melhor o natural, não deve negligenciar-se o valor da viola que imita a voz em todas as suas modulações, e inclusive os seus mais profundos acentos de tristeza e alegria”, escreveu Marin Mersenne na sua Harmonie Universelle (1637).
As obras de Henrich Schütz (1585-1672) seleccionadas para o presente programa foram compostas num período de lágrimas e atrocidades como foi a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Durante quase toda a vida ao serviço do Eleitor da Saxónia, em Dresden, Schütz foi o mais importante compositor alemão do século XVII, tendo absorvido também a influência italiana através dos seus estudos em Veneza com Giovanni Gabrielli. Os seus Kleine geistliche Konzerte (Pequenos Concertos Sacros), para uma a cinco vozes solistas e órgão, foram escritos entre 1636 e 1639, época em que a Guerra dos Trintas Anos reduziu tristemente a Capela do Eleitor da Saxónia. Aspectos como o desespero ou o sofrimento de Cristo são traduzidos através de efeitos precisos de retórica musical. Outra importante colecção na produção de Schütz são as Symphoniae Sacrae editadas em três séries (em 1629, 1647 e 1650). O díptico formado por “Anima Mea Liquefacta Est” e “Adjuro Vos, Filae Jerusalem” pertence ao 1º volume e tem como fonte literária o Cântico dos Cânticos. Evoca as noivas de Israel sonhando com o seu amor, que exprimem através de sinuosos vocalisos.
Claude Goudimel (1520-1572), compositor e editor francês que viveu entre 1557 e 1567 na cidade huguenote de Metz, foi algumas décadas antes uma das muitas vítimas da intolerância religiosa entre católicos e protestantes. Em Metz trabalhou com o poeta e dramaturgo Louis de Masures no seu primeiro Saltério completo (1564), do qual foram extraídos os exemplos interpretados no concerto de hoje. A sua correspondência com o poeta humanista Paul Schede (ou Melissus) data deste período. Em 23 de Agosto de 1572 enviou-lhe a sua última carta a partir de Lyon. Uma semana depois Goudimel era vítima dos massacres do Dia de São Bartolomeu que dizimaram a população huguenote da cidade.
Enquanto os franceses viam na viola da gamba o instrumento mais próximo da voz humana, para os italianos foi o violino o “instrumento-rei”. Também este foi considerado um equivalente da voz humana, um ideal bem patente nas primeiras colecções de Sonatas publicadas por Arcangelo Corelli (1653-1572), que por acaso nunca escreveu música vocal. Corelli tinha-se formado na escola bolonhesa em contacto com os mestres da Basílica de San Petronio (um dos berços da Sonata barroca) mudando-se para Roma em 1671. O seu papel foi decisivo na consolidação de géneros como a Sonata (da chiesa e da camera) e o Concerto Grosso. A sua colecção op. 3 (Roma, 1689) compreende apenas Sonatas da Chiesa escritas para o efectivo da chamada Trio Sonata: um textura formada por dois instrumentos agudos (neste caso duas flautas de bisel) e baixo contínuo, podendo este ser realizado por mais que um instrumentista. Devido ao seu carácter e funcionalidade, as Sonatas da Chiesa recorriam ao órgão como apoio harmónico e apresentavam normalmente a sucessão de andamentos “lento-rápido-lento-rápido” (sendo o andamento introdutório de carácter majestoso, seguido por um Allegro em estilo fugado) enquanto as Sonatas da Camera se aproximavam mais da Suite, contendo um Prelúdio e uma série de danças. As Sonatas da Chiesa de Corelli distinguem-se pela nobreza do seu lirismo, intensidade de expressão e carácter meditativo.
Também o italiano Giovanni Battista Martini (1706-1784), abordou os textos do Ofício de Trevas no âmbito da sua produção litúrgica para a igreja de São Francisco em Bolonha, onde foi organista e mestre de capela. Actualmente é sobretudo conhecido pela sua reputação de musicógrafo e professor (orientou cerca de 100 alunos entre os quais Mozart, J. C. Bach, Grétry ou Jommelli), pelo legado da sua imensa biblioteca e pela numerosa correspondência que trocou com músicos e outras personalidades de toda a Europa. A sua música é, porém, muito pouco ouvida, constituíndo a sua inclusão no programa do Sete Lágrimas Consort, uma oportunidade rara para a conhecer.

Cristina Fernandes
© Arte das Musas 2006

 

Programa

Goudimel, Claude (1520-1572)
Seigneur, écoute ma priére, Psautier Huguenot, adapt. Sete Lágrimas

Schütz, Heinrich (1585-1672)
Erhöre mich, wenn ich rufe SWV 289, Kleine Geistliche Konzerte
O lieber Herre Gott SWV 287, Kleine Geistliche Konzerte
O hilf, Christe Gottes Sohn vol 1 (XIV) , Kleine Geistliche Konzerte

Goudimel, Claude (1520-1572)
Sur ta montagne il a fondé son régne, Psautier Huguenot, adapt. Sete Lágrimas

Anima Mea Liquefacta Est SWV 263 , nr. 7, Symphoniæ Sacræ
Adjuro Vos, Filiae Jerusalem SWV 264 , nr. 8, Symphoniæ Sacræ

Corelli, Arcangelo (1653-1713)
Sonata V da Chiesa a Tre, Opus 3 (1689) em Ré m
Grave/Allegro/Largo/Allegro

Martini, Giovani Battista (1706-1784)
In Monte Oliveti, Responsório, Primeira Lamentação de Jeremias

Corelli, Arcangelo (1653-1713)
Sonata VII da Chiesa a Tre, Opus 3 (1689) em Mi m
Grave/Allegro/Adagio/Allegro

Martini, Giovani Battista (1706-1784)
Tristis Est Anima Mea, Responsório, Segunda Lamentação de Jeremias

Corelli, Arcangelo (1653-1713)
Sonata VI da Chiesa a Tre, Opus 3 (1689) em Sol M
Vivace/Grave/Allegro/Allegro

Martini, Giovani Battista (1706-1784)
Adoramus Te Christe, Responsório, Terceira Lamentação de Jeremias

Goudimel, Claude (1520-1572)
Oh! Que c'est chose belle, Psautier Huguenot, adapt. Sete Lágrimas
La Terre au Seigneur, Psautier Huguenot, adapt. Sete Lágrimas

 

 
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